Stephen Follows, um roteirista e produtor britânico que escreve sobre o mercado de cinema no Reino Unido e nos EUA. Recentemente ele fez um post em seu blog intitulado “Seis maneiras pelas quais a indústria cinematográfica está mudando” (em inglês). Nesse post, Follows apresenta as seis mudanças que analisou no mercado cinematográfico britânico.

Inspirado pelo post dele, resolvi fazer uma avaliação das transformações do mercado audiovisual brasileiro nos últimos anos.

1 – STREAMING

O mercado de streaming no Brasil tem crescido de forma muito proeminente. A principal referência quando falamos de streaming é o Netflix e, de fato, o Brasil é o maior mercado da plataforma na América Latina (link). Porém o mercado nacional tem apresentado números impressionantes em todos os serviços de vídeos. Segundo a empresa de pesquisas eMarketer, 80% dos brasileiros com acesso a Internet haviam utilizado o YouTube no mês de Agosto/2016 para assistir vídeos (link).

O sucesso das plataformas de Video-On-Demanda (VOD) tem movimentado grandes grupos de mídia brasileiros e estrangeiros a também entrarem na onda. A Rede Globo, com o Globo Play, em apenas 1 ano de existência, obteve mais de 10 milhões de usuários. No final de 2016, a Amazon anunciou seu serviço Amazon Prime Video no Brasil também.

Outras iniciativas interessantes no mercado nacional são o Looke, primeiro serviço inteiramente brasileiro de streaming e o anúncio da parceria entre a SPCine, empresa da Prefeitura de São Paulo, com a O2 Play para a criação da SPVOD, uma plataforma exclusiva para produções brasileiras independentes.

2 – TV PAGA

Entre 2010 e 2014, o número de usuários de TV por assinatura dobrou no Brasil, atingindo 19,6 milhões de assinantes. Desde então esse número tem sofrido uma leve queda, como pode ser visto no site da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA). Esse crescimento veio bem em tempo com a regulamentação da lei 12.485, ou “Lei da TV Paga”, em 2012, que estabelece cotas de programação nacional independente, tanto para os canais (e programadoras) quanto para os provedores de pacotes de TV por assinatura, como NET, Sky, etc. (também conhecidas como empacotadoras).

A combinação desses dois fatores fez com que acontecesse um boom na produção nacional de programas de TV, séries, filmes e outros conteúdos brasileiros. A aceitação desses produtos pelo grande público foi tanta que os ofertantes passaram a investir além da cota exigida pela lei, abrindo ainda mais espaço na programação e nos pacotes de assinatura para programas e canais totalmente brasileiros.

Hoje, a audiência combinada da TV paga já ultrapassa as audiências dos canais abertos Record e SBT. Os canais infantis e os de filmes são os que figuram entre os mais assistidos de 2016.

3 – PRODUÇÃO DESCENTRALIZADA

As crescentes políticas da Ancine e das secretarias estaduais de cultura tem levado a produção audiovisual para além do tradicional eixo Rio-São Paulo. Isso tem nos presenteado com produções importantes e de altíssima qualidade, dando representatividade a vozes menos frequentes no audiovisual nacional.

Dentre os grandes sucessos dos últimos anos, podemos destacar o longa Boi Neon do diretor pernambucano Gabriel Mascaro; o drama gaúcho Beira Mar de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon e Aquarius, do também pernambucano Kleber Mendonça Filho.

Essa descentralização é importante porque leva emprego, renda e expertise de produção para outras regiões do país, aumentando as possibilidades de produção e revelando novos talentos para a indústria nacional.

4 – DA PUBLICIDADE AO CONTEÚDO

O mercado tradicional de publicidade está enfrentando um enorme desafio: com um consumidor (e telespectador) mais ativo em suas escolhas, está cada vez mais difícil chamar sua atenção durante, por exemplo, um intervalo comercial de televisão. São inúmeras possibilidades: trocar de canal, olhar o celular, computador, tablet.

Essa nova tendência abriu espaço para o branded content. Cada vez mais, marcas e empresas tem se interessado em construir alternativas à publicidade tradicional, criando histórias e conteúdos que conversam com seu publico-alvo e não se limitam apenas a ofertar e vender um produto.

Essa tendência abre um espaço muito interessante para criadores de conteúdo, que podem utilizar seus talentos como roteiristas, diretores, fotógrafos e etc. para construir histórias junto a essas marcas e empresas.

Um case muito interessante nessa linha é o reality “Cozinhando no Supermercado” (da foto acima), produzido pela Movioca e exibido no canal Discovery Home & Health. A competição culinária é uma parceria com o Pão de Açúcar e promove a marca através de um conteúdo instigante e engajador para a audiência.

5 – PRODUÇÃO NA TV ABERTA

O modelo de produção decorrente da expansão da TV paga, com as programadoras contratando produtoras brasileiras independentes para a produção de conteúdo foi uma mudança interessante na indústria brasileira. As programadoras não precisaram investir em infraestrutura de produção para ter em seus catálogos, conteúdos originais e exclusivos.

Essa lógica de produção também chegou nos canais abertos. Embora já existissem algumas tímidas iniciativas nesse sentido, em 2015, a Record passou o controle do seu RecNov, complexo de estúdios no Rio de Janeiro, para a produtora Casablanca e terceirizou todo a produção de dramaturgia e alguns programas.

A Globo também tem investido no modelo de parceria (embora já o faça há alguns anos). Sua nova série de comédia, Vade Retro, por exemplo, será produzida coma O2 Filmes.

Essas transformações apontam diversos caminhos e oportunidades para produtores e criadores do mercado audiovisual.

Vocês conseguem enxergar outras tendências e transformações pelas quais nossa indústria audiovisual está passando? Tem links legais para compartilhar? Comenta aqui!

Beijos e abraços!!

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